sábado, 3 de agosto de 2013

REPRESENTANTES CEARENSES NA ANTOLOGIA PROPOSTA POR FERNANDO PESSOA

Representantes Cearenses na Antologia Proposta por Fernando Pessoa



Grande Cisma Literário na Terra do Sol 

Por Astolfo Lima

O ceará, através de seus filhos mais ilustres, criativos e determinados, já protagonizou lances memoráveis da nossa história, a exemplo de ter sido o primeiro Estado a proclamar a abolição dos escravos, em que se destaca o Dragão do Mar; ou por ter servido de berço a Delmiro Gouveia, um dos pioneiros na industrialização do país, construtor da primeira hidrelétrica do Brasil; a José de Alencar, idealizador de uma fisionomia própria para o romance nacional, assim como tantas outras figuras notáveis. Por outro lado, e lastimavelmente, tornou-se o Estado responsável pelo grande cisma na literatura brasileira, fazendo despontar, autônoma e desvinculada de qualquer influência externa, sobretudo do próprio espólio literário tupiniquim, uma literatura exclusivamente cearense. Isso, claro, graças à "genialidade" de certos escrevinhadores cabeças-chatas que, à falta de melhor posicionamento para seus próprios devaneios no ranking da Corte, resolveram criar uma tolice que apenas endossa aquela célebre reflexão de Fernando Pessoa de que 90% de toda a produção literária do mundo, tanto a presente (do seu tempo) quanto aquela ainda por surgir (a nossa), seriam totalmente descartáveis. Num futuro não muito distante - dizia o Mestre - tudo se resumirá a uma antologia para cada país: os livros fundamentais, alguns apontamentos históricos, os autores mais relevantes e nada mais. O velho filtro natural de que já falei em artigos anteriores e que começa a se confirmar diante da mediocridade que ora impera no mundo todo, reforçando também a minha convicção de que a literatura, como arte maior, universal, não comporta subdivisões em um mesmo país. Ou é boa ou é ruim e ponto final. 
Ora, cada povo é dono de sua própria literatura, seja essa produzida na Bélgica, no Egito ou na Guatemala, independente da localização interna. Toda nação, em qualquer época, contará sempre com os seus autores catalogáveis ou não; sua poesia, suas características etc, sem que necessite compartimentar a obra ou o artista de real valor, visto ser essa uma tarefa exclusivamente do tempo. Não se diz, por exemplo, literatura da Filadélfia, de Chicago, dissociando-as da americana. Uma literatura produzida em Nice ou Paris, não deixará de ser francesa; em Berlim ou Frankfurt, Alemã, e assim por diante. Se falo de minha aldeia, porém o faço com arte, evidente que o alcance da mensagem será infinito. Os gregos, por exemplo, ergueram sólidos pilares na Filosofia, servindo como matriz para diversas outros povos, que, nem por isso, deixariam de criar suas próprias correntes de pensamentos. Assim como fizeram os italianos nas epopeias, os ingleses ou espanhóis em suas narrativas históricas etc. Até os dicionários - para quem ainda tiver alguma dúvida a esse respeito - referem a Literatura, simplesmente, como "arte de compor ou escrever trabalhos artísticos em prosa ou verso; a produção literária dum país ou duma época". O resto é invencionice. 
Na concepção desses pseudos analistas, da Terra do Sol, consagrados autores como José de Alencar, Domingos Olímpio, Capistrano de Abreu, Clovis Bevilaqua, Farias Brito, Araripe Júnior, Franklin Távora, Raimundo Magalhães Júnior, Herman Lima, Rachel de Queiroz ou Gerardo Mello Mourão não seriam escritores cearenses, dado seus textos terem sido articulados em outros Estados da Federação, devendo, portanto, serem todos catalogados como "escribas brasileiros", ou avulsos, sei lá. Por outro lado, e contraditoriamente, os não menos notáveis Adolfo Caminha, Oliveira Paiva, Rodolfo Teófilo, Juvenal Galeno, Padre Antonio Tomás, José Albano, Antonio Sales, Álvaro Martins ou Gustavo Barroso, que igualmente escreveram obras de largo alcance, em língua portuguesa, a partir de diversos lugares, inclusive do Ceará, lógico, esses, sim, seriam os reais representantes da tal literatura cabeça-chata. Ou seja: rotulam a obra como "literatura cearense" pelo fato de que o signatário produziu seu trabalho a partir da província ou o fez sobre temas locais - pouco importando que tais escritos se destinassem ao mundo. Como vemos, uma tolice monumental, pois tomando por base as considerações de Fernando Pessoa, será justo imaginarmos que todos os autores acima mencionados teriam lugar garantido numa antologia brasileira, e não cearense, ainda que alguns apenas pela importância histórica de suas obras. A esses, eu acrescentaria apenas os historiadores Antonio Bezerra e Barão de Studart, o excepcional cronista-sociólogo João Brígido, e mais Jáder de Carvalho, José Alcides Pinto, Moreira Campos e Francisco Carvalho - o quarteto que encerra justamente a última de nossas fases mais criativas.
O fenômeno desse forçado racha na literatura brasileira se deu, quero crer, pelo fato de o Ceará ter sido, em determinado período de sua rica história, um lugar com inúmeros vocacionados para as letras, muito embora nem todos merecessem alinhar ao lado de todos esses que citei neste texto e que jamais haveriam de ser superados. De uns tempos para cá, aliás, nossa literatura só tem se repetido como farsa: poetas sofríveis, romancistas medíocres, contistas lastimáveis e cronistas nulos. Nenhum digno de referência mais branda. Vaidade exagerada; talento de menos. Exibicionismo e, algumas vezes, apenas cinismo ou cara de pau. Ou seja: se não posso fazer parte da Corte, crio um mundo de fantasia onde me tornarei amigo do rei.
Essa vocação cearense a que me refiro pode ser constatada na infinidade de associações, grêmios e academias literárias que começaram a prosperar em Fortaleza a partir da segunda metade do século XIX, estendendo-se até o pós-segunda guerra, e que teve seu ponto culminante com a Padaria Espiritual, comandada por Antonio Sales. Um movimento que seria relevante para as letras nacionais não apenas por projetar cinco grandes escritores, mas, sobretudo, por ter lançado luz sobre a necessidade de renovação em nossas letras, brado que só viria a ocorrer, de modo oficial, por volta de 1922, em São Paulo. E tudo isso - vejam! - sem enumerar as centenas de revistas e jornais que surgiam diariamente por todas as cidades do Estado do Ceará, notadamente na sua capital Fortaleza, em que cada uma dessas publicações, por mais modesta que fosse, contava sempre com uma seção dedicada à literatura, conforme anotaria o Barão de Studart no seu livro "A História do Jornalismo Cearense", e aí incorporando-se, naturalmente, o Almanaque do Ceará, que saía todo ano em grosso volume, sendo a metade destinada aos literatos da terra. 
A história da literatura desenvolvida no Ceará a partir da segunda metade do século XIX até o presente momento, portanto, é uma só, imutável, constituída tão-somente por esses autores aqui citados, ainda que alguns brincantes das letras insistam em querer agregar a ela o próprio nome ou de seus pares, numa flagrante tentativa de lesarem as gerações forjadas na mediocridade desse pós-nada em que estamos mergulhados.
 
Fonte: http://literaturareal.blogspot.com.br/2012/06/representantes-cearenses-na-antologia.html