segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A VINGANÇA OU O MAL DE VIRGINIA - CONTO DE FRANCISCO DELIANE


A VINGANÇA OU O MAL DE VIRGINIA



Virginia entrou placidamente na igreja. Ajoelhou-se. Após persignar-se rezou uma breve oração. Levantou-se, dirigiu-se ao altar, depositou sua oferta e voltou sentando-se na quarta fila de bancos, aguardando o inicio das orações coletivas que deveriam anteceder a missa daquela noite.


O tempo era novembro. Quanto à hora os ponteiros se estendiam verticalmente em sentido contrário um ao outro. Eram 18 horas em ponto. Ao olhar à hora e perceber que o ponteiro que marca os segundos parecia querer formar com os outros, um arremedo de crucifixo, embora sem um dos braços da cruz, Virginia sentiu medo em seu coração, possivelmente por pressentir o que viria acontecer ainda naquela noite.

Assim, enquanto permanecia neste devaneio um homem aproximou-se e sentou-se suavemente ao seu lado. Novamente uma conturbada sensação de angustia, medo, e prazer adentrou os seus sentidos.

Instintivamente virou-se e seus olhos encontraram os olhos daquele homem. Um homem de magnífica beleza. Sua roupa bem talhada demonstrava ser bem cara. As marcas que ostentava em seu vestir bem demonstravam isto. No pulso um“rolex”, e no bolso a caneta “mont`blanc” evidenciavam que aquele homem tinha dinheiro.

Os sapatos, de uma limpeza e brilho como se nunca houvessem tocado o solo ajudavam a consolidar a idéia de que aquele homem tinha poder. Virginia, timidamente ajeitou-se em seu assento. O homem sorriu.

No altar uma senhora de bastante idade, com um terço na mão concitou os fiéis a rezarem uma Ave Maria. Enquanto a oração começava Virginia pensou ouvir dos lábios daquele homem a expressão:

– In nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. Amen.

Involuntariamente virou-se para o homem que de forma como nunca d`antes houvera acontecido consigo chamava a sua atenção e fazia surgir em suas entranhas tão inusitado desejo.

A oração já não chegava aos seus ouvidos, e dela não participava, com efeito, sua mente viajava agregada às formas calorosas e aos lábios frescos daquele homem, que inexoravelmente a atraiam para uma confusão dos sentidos, e para um abismo nunca antes imaginado. O sexo pelo sexo. O prazer pelo prazer. A concupiscência da carne. O pecado. O Despudor. A imoralidade.

Virginia deixou cair de seu colo, “o catecismo da doutrina cristã” que houvera adquirido naquela tarde, ali mesmo na secretaria da paróquia. Como se por força de uma mágica silenciosa e imperceptível o homem apanhou o catecismo quando este ainda se encontrava em plena queda livre, e no afã de apanhar o livro antes de tocar o solo, o dorso daquele homem tocou o seio eriçado de Virginia, que sentiu um arrepio por todo o seu corpo, ao mesmo tempo em que o agradável cheiro daquele homem atingia-lhe o cérebro num emaranhado de sentimentos.

Mas aquele homem tinha algo estranho, e ao voltar a si, Virginia ouviu ao seu lado o homem balbuciar assim:

– Salve Regina, mater misericordiae, vita, dulcedo, et spes nostra, salve. Ad te clamamus exsules filii Hevae. Ad te suspiramus, gementes et flentes in hac lacrimarum valle. Eia, ergo, advocata nostra, illos tuos misericordes oculos ad nos converte. Et Iesum, benedictum fructum ventris tui, nobis post hoc exsilium ostende.

– O clemens, O pia, O dulcis Virgo Maria. Amen. 

O que seria aquilo. Porque aquele homem falava em uma língua fora de uso. Uma língua morta! Antiga! Seria ele membro de algumas destas obscuras irmandades e congregações ainda existentes e cuja utilidade não se sabe.

Aquele homem seria um louco? Mas o que é a loucura?

Poderia ela prejulgar aquele homem, simplesmente porque não estava falando a sua língua?

Se aquele homem fosse mau estaria naquele lugar sagrado. Sorrindo e rezando. Não. Definitivamente precisava esquecê-lo.

Virginia, também era uma menina de rara beleza. Ficara órfã no dia do seu sétimo aniversário, a mãe cortara os próprios pulsos e foi encontrada pela menina, que filha única permanecera sozinha na companhia paterna, até que este, também, se suicidara no dia em que a mesma completara quatorze anos.

Sem pai e mãe Virginia foi morar na companhia das freiras daquela pequena comunidade, por haver morado com as freiras podia assegurar que aquele homem rezava em latim.

Embora, todos a aconselhassem a tornar-se freira, Virginia não quis fazer os votos e aos dezenove anos deixara o noviciado, permanecendo praticante fiel de sua religião e ainda não havia experimentado nenhum contato sexual.

Aquele dia era o dia do vigésimo primeiro aniversário de Virginia.

Ao término da missa, o homem tocou a mão de Virginia e disse:


- Vem comigo!

Virginia o acompanhou sem nada dizer.

No dia seguinte a diarista que fazia a faxina no pequeno apartamento de Virginia, ao abrir a porta do banheiro, soltou um grito de absoluto terror.

Houvera encontrado o corpo nu de Virginia, caído na banheira, imerso em espuma, com os dois braços em cruz, jogados para fora da banheira e com os pulsos cortados, por cujos cortes se esvaíra todo o sangue que outrora controlara a temperatura ardente daquela menina, hoje mulher de raríssima beleza.

Na espuma havia algo escrito com o sangue que outrora circulara no corpo de Virginia.

O velho perito constatou apressadamente o suicídio. E lembrou que ele próprio houvera anos antes atestado o suicídio da mãe daquela mulher, igualmente bela e com a mesma idade desta. Lamentou ainda que àquele caso permanecesse sem solução, porque, apesar de declarado como suicídio, nunca fora sido encontrado o instrumento utilizado para o corte dos pulsos da mãe de Virginia.

O velho perito chamou seu colega, e juntos leram o que estava tingindo de vermelho a branca e cheirosa espuma que envolvera o corpo de Virginia em seus últimos instantes de vida, e persignou-se, ao ler:

– Mater Dei, ora pro nobis peccatoribus, nunc, et in hora mortis nostrae. Amen. 



A estranheza do caso, e pior ainda, a sua estranha repetição, fez com que o Delegado envidasse todos os esforços na realização dos exames periciais efetivados no local do crime, constatando, porém, que:

Primeiro: As portas do pequeno apartamento, em número de duas apenas, e bem assim, as duas janelas ali existentes não foram arrombadas, permaneciam intactas e fechadas por dentro;

Segundo: No quarto de banho não fora encontrada nenhuma outra impressão digital, excetuando-se, as de Virginia;

Terceiro: O instrumento utilizado para a efetivação do suicídio não foi encontrado nem no banheiro e nem na integralidade do apartamento. 

Quarto: No apartamento não foi encontrado nenhuma mancha de sangue, excetuando-se aquelas encontradas próximas onde repousavam os braços inertes de Virginia, e aquela com qual se escrevera na espuma. Nada mais existia. Nada.

Depois que contei tudo isto, devo dizer que:

Virginia foi sepultada como se houvesse tentado contraa sua própria vida, e eu que a conhecia sei que não faria tão tresloucado gesto. Dediquei-me a investigar para encontrando a verdade fazer justiça a memória de Virginia.

Dentre os muitos lugares onde andei, estive na igreja. Lá, as pessoas não lembram de nenhum fato que tenha aptidão para elucidar o caso, contudo, conversei com a beata que faz a limpeza do local, e esta me confidenciou que no dia posterior ao da morte daquela moça, encontrou no piso da igreja um “catecismo da doutrina cristã”, novinho, mas estragado porque alguém houvera escrito nele com alguma tinta vermelha que até parecia sangue, os seguintes dizeres.



– “Valei-me Deus. Ele voltou. A vingança será completa. O que será de mim?”



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